Princípios Básicos da Doutrina das Duas Naturezas em uma Pessoa

O texto abaixo é um resumo baseado no livro “Introdução à Teologia Sistemática” de Millard J. Erickson, 1ª edição, 1997, p. 304-307.

Cristologia (Parte 4) - A Divindade de CristoO enunciado dessa doutrina foi formulado no Concílio de Calcedônia em 451: “Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, indivisíveis e inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só Pessoa (prosopõn) e Subsistência (hypostasis); não dividido ou separado em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho, Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito [testemunharam], e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos pais nos transmitiu”.
Tanto a unidade da pessoa quanto a integridade e a inseparabilidade das duas naturezas são reforçadas nesse enunciado. A conclusão de Calcedônia nos diz o que “duas naturezas em uma pessoa” não significa. Calcedônia não é a resposta; é a pergunta. Alguns pontos cruciais nos ajudarão a compreender esse grande mistério.
1. A encarnação foi mais uma aquisição de atributos humanos que uma desistência de atributos divinos. Filipenses 2.6,7, aquilo de que Jesus se esvaziou não foi a natureza de Deus, Colossenses 2.9. É da igualdade com Deus, não da forma de Deus, que Jesus se esvaziou. Apesar de não deixar de ser como o Pai no que diz respeito à natureza, ele se tomou funcionalmente subordinado ao Pai durante o período de encarnação.
2. A união das duas naturezas significa que elas não atuaram independentemente. Jesus não exerceu sua deidade em certas ocasiões e sua humanidade em outras. Seus atos sempre eram da divindade e da humanidade. Essa é a chave para compreender as limitações funcionais que a humanidade impôs sobre a divindade. Por exemplo, ele ainda tinha poder para estar em toda parte (onipresença). No entanto, como um ser encarnado, estava limitado no exercício daquele poder pelo fato de possuir um corpo humano. Isso não deve ser visto como uma redução do poder e das capacidades da Segunda Pessoa da Trindade, mas, antes, uma limitação circunstancial no exercício de seu poder e de suas capacidades.
Visualize a seguinte analogia. O velocista mais rápido da terra entra numa corrida de três pés em que ele precisa correr com uma de suas pernas atada à perna de um companheiro. Embora sua capacidade física não seja diminuída, as condições sob as quais ele a exerce são severamente limitadas. Mesmo que seu companheiro fosse o segundo melhor velocista do mundo, o tempo deles será muito mais alto do que seria, caso competissem em separado.
Isso se parece com a situação do Cristo encarnado. Assim como o velocista poderia desfazer a amarra, mas resolve limitar-se durante o evento, a encarnação de Cristo também foi uma limitação voluntária, escolhida por ele mesmo. Ele não precisava assumir a humanidade, mas resolveu fazê-lo pelo período da encarnação.
3. Ao pensar na encarnação, precisamos começar não com as concepções tradicionais de humanidade e de deidade, mas com o reconhecimento de que ambos são conhecidos da forma mais completa possível em Cristo. Nenhum de nós é a humanidade tal como Deus pretendia que fosse ou como surgiu de sua mão. A humanidade foi danificada e corrompida pelo pecado de Adão e Eva. Quando dizemos que na encarnação Jesus assumiu a humanidade, não estamos falando desse tipo de humanidade. Pois a humanidade de Jesus não era a humanidade de seres humanos pecadores, mas a humanidade possuída por Adão e Eva desde a criação e antes da queda. A pergunta não é se Jesus era plenamente humano, mas se nós o somos. Ele não era apenas tão humano quanto nós; ele era mais humano que nós. Ele possuía, espiritualmente, o tipo de humanidade que possuiremos quando formos glorificados. Jesus revela de forma mais completa possível a verdadeira natureza da humanidade.
Jesus Cristo é também nossa melhor fonte para conhecer a deidade. É em Jesus que Deus se revela e é conhecido de forma mais completa possível (Jo 1.18). Sendo a imagem de Deus, os homens já são as criaturas mais parecidas com ele. É bem possível que o propósito de Deus ao fazer os homens à sua própria imagem fosse o de facilitar a encarnação que ocorreria algum dia.
4. É importante pensar que a iniciativa da encarnação vem do alto, e não de baixo. Na realidade estamos nos perguntando de que forma um ser humano poderia ser Deus, como se fosse uma questão de um ser humano tornar-se Deus ou acrescentar, de alguma maneira, a deidade à sua humanidade. Mas, para Deus, tornar-se homem (ou, mais corretamente, acrescentar a humanidade à sua deidade) não é impossível. Ele é ilimitado e, portanto, capaz de condescender com o inferior, uma vez que o inferior não pode ascender ao maior ou superior. O fato de um homem não ter ascendido à divindade nem de Deus ter elevado um homem à divindade, mas, antes, de Deus ter condescendido para assumir a humanidade, aumenta nossa capacidade de conceber a encarnação.
5. É também útil pensar em Jesus como uma pessoa muito complexa. Das pessoas que conhecemos, algumas são relativamente simples. Outras pessoas, por sua vez, têm personalidade muito mais complexa. Talvez possuam uma gama mais ampla de experiência, uma formação cultural mais variada ou uma compleição emocional mais complexa. Agora, se imaginarmos a complexidade expandida ao infinito, teremos, digamos, um pequeno lampejo da “personalidade de Jesus”, de suas duas naturezas em uma pessoa, pois a personalidade de Jesus incluía as qualidades e os atributos que constituem a deidade. Com certeza, temos aqui um problema, pois essas qualidades diferem das qualidades humanas. Esse ponto serve para nos lembrar de que a pessoa de Jesus não era um simples amálgama de qualidades humanas e divinas misturadas. Antes, ele possuía uma personalidade que, além das características da natureza divina, tinha também todas as qualidades ou atributos da natureza humana perfeita e sem pecado.

Sobre Cristianismo Total

Cristianismo Total é um blog evangélico que tem como objetivo difundir a fé Cristã, que é a mensagem através da qual o Deus Eterno se revelou à humanidade.
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