A Unipersonalidade de Cristo

Cristo_774423686_17_cristoO esboço abaixo é baseado no livro “Teologia Sistemática” de Louis Berkhof, 2ª edição, 1992, p. 321-325.

No ano 451 o Concílio de Calcedônia formulou a fé cristã a respeito da pessoa de Cristo e declarou que Ele deve “ser reconhecido em duas naturezas, inconfusa, imutável, indivisível e inseparavelmente; sendo que a distinção das naturezas de modo nenhum é eliminada pela união, mas, antes, a propriedade de cada natureza é preservada, e ambas concorrem numa Pessoa e numa Subsistência, não partida ou dividida em duas pessoas”. Esta formulação procura resguardar a verdade; afirma a fé esposada pela Igreja Primitiva; não faz nenhuma tentativa para explicar o mistério envolvido. O grande milagre central da história deixou-se sobressair em toda a sua grandeza, o supremo paradoxo, Deus e o homem numa só pessoa. Se nos diz o que Cristo é, sem qualquer tentativa de mostrar como Ele se tomou o que é. Enuncia-se que o eterno Filho de Deus tomou sobre Si a nossa humanidade, e não que o homem Jesus adquiriu divindade. Atesta um movimento de Deus para o homem, e não vice-versa. A igreja nunca foi além da fórmula de Calcedônia. Ela sempre reconheceu a encarnação como um mistério que desafia toda e qualquer explicação. E assim permanecerá.

I.) Exposição do Conceito da Igreja a Respeito da Pessoa de Cristo

1. Há somente uma pessoa no Mediador, o Logos imutável. O Logos fornece a base da personalidade de Cristo. Contudo, não seria correto dizer que a pessoa do Mediador é somente divina; a encarnação fez dele uma pessoa complexa, constituída de duas naturezas. Ele é o Deus-homem.

2. O Logos não adotou uma pessoa humana, com a resultante de haver duas pessoas no Mediador, mas simplesmente assumiu uma natureza humana. Naquilo em que nós temos uma pessoa pecaminosa, Ele tem, ou melhor, é a pessoa divina do Logos.

3. Não é certo falar que a natureza humana de Cristo é impessoal. Isto só é verdade no sentido de que esta natureza não tem subsistência independente por si mesma. Nem por um momento a natureza humana de Cristo era impessoal. O Logos assumiu essa natureza numa subsistência pessoal com Ele. A natureza humana tem a sua existência pessoal na pessoa do Logos. É in-pessoal, e não impessoal.

4. Não temos base para dizer que a natureza humana de Cristo é imperfeita ou incompleta. Nada falta à Sua natureza humana, em nenhuma das qualidades essenciais pertencentes a essa natureza, e ela também possui individualidade, isto é, subsistência pessoal, na pessoa do Filho de Deus.

5. Esta subsistência pessoal não deve ser confundida com consciência e vontade livre. O fato de que a natureza humana de Cristo, por si mesma, não tem subsistência pessoal, não significa que não tem consciência e vontade. A posição assumida pela igreja é que a consciência e a vontade pertencem à natureza, não à pessoa.

6. A pessoa divina, que possuía uma natureza divina desde a eternidade, assumiu uma natureza humana, e agora tem ambas. Esta verdade deve ser afirmada contrariamente àqueles que, embora admitindo que a pessoa divina assumiu uma natureza humana, comprometem a integridade das duas naturezas concebendo-as como fundidas ou misturadas, resultando numa terceira realidade.

II.) Prova Bíblica da Unipersonalidade de Cristo

A doutrina das duas naturezas numa só pessoa transcende a razão humana. É expressão de um mistério incompreensível, que não tem analogia. Só pode ser aceita pela fé na autoridade da Palavra de Deus.

1. Na Escritura não há evidência de uma personalidade dual – Não há distinção de um “Eu” e um “Tu” na vida interna do Mediador, como a que vemos com relação ao trino Ser Divino, onde uma pessoa se dirige a outra, SI 2.7; 40.7, 8; Jo 17.1,4, 5, 21-24. Jesus nunca fez uso do plural ao referir-se a Si próprio, como Deus faz Gn 1.26; 3.22; 11.7.

2. Ambas as Naturezas são representadas na Escritura como unidas numa só pessoa – Há passagens da Escritura que se referem às duas naturezas de Cristo, mas nas quais é mais que evidente que só se tem em mente uma pessoa, Rm 1.3, 4; Gl 4.4, 5; Fp 2.6-11. Em diversas passagens ambas as naturezas são expostas como unidas. A natureza divina, isto é, a pessoa divina do Filho de Deus, estava unida a uma natureza humana, Jo 1.14; Rm 8.3; Gl 4.4; 9.5; 1 Tm 3.16; Hb 2.11-14; 1 Jo 4.2, 3.

3. A Pessoa é aludida em termos próprios de uma das duas Naturezas – De um lado, atributos e ações humanos são proferidos como pertencentes à pessoa, enquanto Ele é tratado com um título divino, At 20.28; 1 Co 2.8; Cl 1.13, 14. E doutro lado, atributos e ações divinos são proferidos como pertencentes à pessoa, enquanto Ele é tratado com um título humano, Jo 3.13; 6.62; Rm 9.5.

III.) Os Efeitos da União das Duas Naturezas em uma Pessoa

1. Nenhuma mudança essencial na Natureza divina – Deve-se sustentar que a natureza divina não sofreu nenhuma mudança essencial na encarnação. Ela permaneceu impassível, isto é, sem possibilidade de sofrer e morrer, livre de ignorância e insuscetível de fraqueza e queda na tentação. O resultado da encarnação foi que o Salvador divino pôde ter deficiência de conhecimento e fraqueza, pôde ser tentado, e pôde sofrer e morrer, não em sua natureza divina, mas em virtude de Sua natureza humana.

2. Uma tríplice comunicação resultante da Encarnação
a. Uma comunicação de propriedades – As propriedades de ambas as naturezas, a humana e a divina, passaram a ser propriedades da pessoa. Pode-se dizer que a pessoa é toda-poderosa, onisciente, onipresente, e assim por diante, mas também se pode dizer que é um varão de dores, de conhecimento e poder limitados, e sujeito às necessidades e misérias humanas. Devemos ter o cuidado de não entender que alguma coisa peculiar à natureza divina foi comunicada ou transmitida à natureza humana, e vice-versa; nem que há uma interpenetração das duas naturezas, com o resultado que o divino é humanizado e o humano é divinizado. A Divindade não pode participar da fraqueza humana; tampouco pode o homem compartilhar nenhuma das perfeições essenciais do soberano Deus.
b. Uma comunicação da obra consumada – A obra redentora de Cristo leva um caráter divino-humano. (1) A causa eficiente da obra redentora de Cristo é o sujeito pessoal único e indiviso que caracteriza Cristo; (2) essa obra é realizada pela cooperação das duas naturezas; (3) cada uma das duas naturezas age usando a sua própria eficácia especial; (4) não obstante, o resultado forma uma unidade indivisa, porquanto é obra realizada por uma única pessoa.
c. Uma comunicação de graças ou dons – A natureza humana de Cristo foi adornada com todas as classes de ricos e gloriosos dons, como (1) a graça de união com a pessoa do Logos, pela qual a natureza humana é elevada acima de todas as criaturas e até se torna objeto de adoração; (2) a graça habitual, que consiste daqueles dons do Espírito, em particular os do intelecto, da vontade e de poder, pelos quais a natureza humana de Cristo foi exaltada acima de todas as criaturas inteligentes. Especialmente a impecabilidade de Cristo deve ser mencionado aqui.

3. O Deus e Homem é objeto de oração – O Mediador, exatamente como existe agora, isto é, com duas naturezas, é objeto da nossa oração. A honra da adoração não pertence à natureza humana como tal, mas lhe pertence somente em virtude da sua união com o Logos divino, que em Sua própria natureza é digno de ser adorado. O objeto do nosso culto religioso é o Deus e homem Cristo Jesus, mas a base sobre a qual O adoramos é a pessoa do Logos.

IV.) A Unipersonalidade de Cristo, um Mistério

A união das duas naturezas numa pessoa é um mistério que não podemos compreender e que, por essa mesma razão, é frequentemente negado. Às vezes é comparado com a união de corpo e alma no homem; e há mesmo alguns pontos de similaridade. No homem há duas substâncias, matéria e espírito, intimamente unidas e, contudo, não misturadas; assim também no Mediador. No homem o princípio de unidade, a pessoa, não tem sua sede no corpo, mas na alma; no Mediador, não na natureza humana, mas na divina. Como a influência da alma sobre o corpo e do corpo sobre a alma é um mistério, assim também a relação das duas naturezas de Cristo e suas influências recíprocas. Tudo que acontece no corpo e na alma é atribuído à pessoa; assim, tudo que se dá nas duas naturezas de Cristo é atribuído à Sua pessoa. Como é uma honra para o corpo estar unido à alma, assim é uma honra para a natureza humana estar unida à pessoa do Logos. Naturalmente, a comparação é defeituosa. Ela não ilustra a união do divino e o humano, do infinito e o finito. Tampouco ilustra a unidade das duas naturezas numa só pessoa. No caso do homem, o corpo é material e a alma é espiritual. É uma união maravilhosa, mas não tão maravilhosa como a união das duas naturezas de Cristo.

Sobre Cristianismo Total

Cristianismo Total é um blog evangélico que tem como objetivo difundir a fé Cristã, que é a mensagem através da qual o Deus Eterno se revelou à humanidade.
Esse post foi publicado em Cristologia, Teologia e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s