A Doutrina de Cristo na História

Mosaico de Jesus Cristo, do período bizantino (século IV ao XV), encontrado na antiga Igreja de Hagia Sophia.

Mosaico de Jesus Cristo, do período bizantino (século IV ao XV), encontrado na antiga Igreja de Hagia Sophia.

O esboço abaixo é baseado no livro “Teologia Sistemática” de Louis Berkhof, 2ª edição, 1992, p. 305-311.

Literatura cristã primitiva
> Cristo sobressai como humano e divino, como o Filho do homem, também como o Filho de Deus.
> Seu caráter sem pecado é defendido; considerado como legítimo objeto de culto.
> Problemas suscitados por Cristo, como ao mesmo tempo Deus e homem não foram plenamente sentidos pela mente cristã dos primeiros tempos (nos tempos da perseguição, a submissão à Cristo e à Bíblia era mais importante do que o significado de certas doutrinas).

Ebionitas
> Sentiram-se constrangidos, no interesse do monoteísmo, a negar a divindade de Cristo.
> O consideravam como simples homem, filho de José e Maria, qualificado em Seu batismo para ser o Messias, pela descida do Espírito Santo sobre Ele.

Os alogi (álogos ou alogianos)
> Rejeitavam os escritos de João; entendiam que a sua doutrina do Logos está em conflito com o restante do Novo Testamento.
> Viam em Jesus apenas um homem, conquanto miraculosamente nascido de uma virgem; ensinavam que Cristo desceu sobre Ele no batismo, conferindo-lhe poderes sobrenaturais.

Monarquistas dinâmicos
> “defensores” de Deus (o Monarca); “dinâmicos” do grego dynamis “força, poder”, pois diziam que Deus deu força e poder a Jesus, adotando-o como Filho.
> Paulo de Samosata (principal representante) distinguia entre Jesus e o Logos; considerava Aquele como um homem igual a todos os demais, e Este como a razão impessoal divina, que fez Sua habitação em Cristo desde a ocasião do Seu batismo, e O qualificou para a Sua tarefa.

Gnósticos
> Alguns sacrificavam a divindade pela defesa da humanidade de Cristo; outros invertiam a ordem.
> Rejeitavam a ideia de uma encarnação, de uma manifestação de Deus em forma visível (isto envolveria um contato direto do espírito com a matéria – entendiam a matéria como inerentemente má, completamente oposta ao espírito).
> A maioria deles considerava Cristo como um Espírito consubstancial com o Pai que desceu sobre o homem Jesus quando do Seu batismo, mas O deixou de novo antes da Sua crucificação; segundo outros, Ele assumiu um corpo meramente fantasmagórico.

Monarquistas modalistas
> Concebia as três Pessoas da Trindade como os três modos pelos quais Deus se manifestava.
> Também negavam a humanidade de Cristo, em parte no interesse da Sua divindade, e em parte para preservar a unidade do Ser Divino.
> Viam nele apenas um modo ou uma manifestação do Deus único, em quem não reconheciam nenhuma distinção de pessoas.

Pais alexandrinos e antignósticos
> Empreenderam a defesa da divindade de Cristo, mas não evitaram inteiramente o erro de descrevê-lo como subordinado ao Pai (Berkhof fala de “uma certa ordem na Trindade”, pg. 90).
> Tertuliano ensinava uma espécie de subordinação, mas especialmente Orígenes, que não hesitava em falar de uma subordinação quanto à essência. Isto veio a ser um ponto de partida para o arianismo.

Arianismo
> Faz distinção entre Cristo e o Logos como a razão di¬vina; Cristo é apresentado como uma criatura pré-temporal, super-humana, a primeira das criaturas, não Deus e, todavia, mais que homem.

Atanásio
> Contestou a Ário e defendeu vigorosamente a posição de que o Filho é consubstanciai com o Pai e da mesma essência do Pai, posição oficialmente adotada pelo Concílio de Nicéia.

Semi-arianismo
> Propôs uma via média, declarando que a essência do Filho é semelhante à do Pai.

Concílio de Nicéia, em 325
> Convocado para resolver a disputa ariana.
> Divindade do Filho foi estabelecida oficialmente.

Apolinário
> Surgiu a questão quanto à relação mútua das duas naturezas de Cristo.
> Apolinário, aceitando a concepção tricotômica do homem como consistindo de corpo, alma e espírito, tomou a posição de que o Logos assumiu o lugar do espírito (pneuma) no homem, que ele considerava a sede do pecado.
> Seu interesse era assegurar a unidade da pessoa de Cristo, sem sacrificar a sua real divindade; e também resguardar a impecabilidade de Cristo. Mas o fez em detrimento da completa humanidade do Salvador.
> Sua posição foi condenada pelo Concílio de Constantinopla, em 381.
> Apolinário lutava pela unidade da pessoa de Cristo (que realmente corria perigo conforme se vê a seguir)

Escola de Antioquia
> Exagerava a distinção das duas naturezas de Cristo.
> Teodoro de Mopsuéstia e Nestório acentuavam a completa humanidade de Cristo; a habitação do Logos nele era apenas uma habitação moral, como a que os crentes também gozam, embora não no mesmo grau.
> Viam em Cristo um homem lado a lado com Deus, em aliança com Deus, compartilhando o propósito de Deus, mas não unido a Ele numa unidade de vida pessoal única – viam nele um Mediador que consistia de duas pessoas.

Cirilo de Alexandria
> Em oposição a eles, Cirilo de Alexandria salientava fortemente a unidade da pessoa de Cristo e, na opinião dos seus oponentes, negava as duas naturezas, conquanto com toda a probabilidade esses oponentes o tenham entendido mal.

Eutico e os seus seguidores
> Recorreram a Cirilo quando assumiram a posição de que a natureza humana de Cristo foi absorvida pela divina, ou que as duas se fundiram resultando numa só natureza, posição que envolvia a negação das duas naturezas de Cristo.

Concílio de Calcedônia, em 451
> Condenou esses conceitos e manteve a crença na unidade da pessoa, como também na dualidade das naturezas.

Monofisitas e Monotelitas
> Por algum tempo o erro eutiquiano continuou com os monofisitas e monotelitas, mas finalmente foi dominado pela igreja.

Leôncio de Bizâncio
> O perigo de que a natureza humana de Cristo fosse considerada como inteiramente impessoal foi afastado por Leôncio de Bizâncio, quando demonstrou que ela não é impessoal, mas in-pessoal, tendo a sua subsistência pessoal na pessoa do Filho de Deus.

João de Damasco
> Cristologia do Oriente alcançou o seu desenvolvimento máximo com ele;
> Acrescentou a ideia de que há uma comunicação dos atributos divinos à natureza humana, de modo que esta é deificada e também podemos dizer que Deus sofreu na carne. Ele mostra a tendência de reduzir a natureza humana à posição de mero órgão ou instrumento do Logos, se bem que admite que há cooperação das duas naturezas, e que a pessoa única exerce ação e vontade em cada natureza, embora a natureza humana esteja sempre sujeita à divina.

Felix, bispo de Urgel
> Representante da Igreja ocidental, defendeu o adocionismo (professa que Jesus nasceu humano, tornando-se posteriormente divino por ocasião do seu batismo, ponto em que foi adotado como filho de Deus).
> Considerava Cristo, quanto à Sua natureza divina, isto é, o Logos, como o unigênito Filho de Deus no sentido natural, mas considerava Cristo, em Seu lado humano, como um Filho de Deus meramente por adoção. Felix procurou preservar a unidade da pessoa salientando o fato de que, desde o momento da Sua concepção, o Filho do homem foi absorvido na unidade da pessoa do Filho de Deus. Fez-se, assim, distinção entre a filiação natural e a adotiva, e esta não começou com o nascimento natural de Cristo, mas teve início por ocasião do Seu batismo e se consumou em Sua ressurreição. Foi um nascimento espiritual que fez de Cristo o Filho adotivo de Deus. Mais uma vez a igreja viu a crença na unidade da pessoa de Cristo ameaçada por esse conceito e, portanto, ele foi condenado pelo Sínodo de Franckfurt, em 794.

Idade Média
> Acrescentou muito pouca coisa à doutrina da pessoa de Cristo.
> Devido a várias influências, como as da ênfase à imitação de Cristo, das teorias sobre a expiação, e do desenvolvimento da doutrina da missa, a igreja se apegou fortemente à plena humanidade de Cristo.

Escolásticos
> Buscavam conciliar a fé cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega.
> Expuseram em sua Cristologia um conceito docético (defendia que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente).

Pedro Lombardo
> Não hesitava em dizer que, com relação à Sua humanidade, Cristo não era absolutamente nada. Mas este niilismo (desvalorização e a morte do sentido) foi condenado pela igreja.

Tomaz de Aquino
> A pessoa do Logos tornou-se composta na encarnação, e Sua união com a natureza tomas-de-aquino1humana “impediu” esta última de chegar a ter uma personalidade independente.
> A natureza humana de Cristo recebeu dupla graça em virtude de sua união com o Logos, (a) a gratia unionis (graça da união), que lhe comunicou uma dignidade especial, de modo que até se tomou objeto de culto, e (b) a gratia habituális (graça habitual), que a mantinha em sua relação com Deus.
> O conhecimento humano de Cristo era duplo, a saber, um conhecimento infuso e um conhecimento adquirido. Há duas vontades em Cristo, mas a causalidade última pertence à vontade divina, à qual a vontade humana está sempre sujeita.

Reforma
> Não trouxe grandes mudanças à doutrina da pessoa de Cristo. Tanto a Igreja Romana como as igrejas da Reforma subscreveram a doutrina de Cristo nos termos de sua formulação pelo Concílio de Calcedônia.

Luteranos
> A doutrina de Lutero sobre a presença física de Cristo na ceia do Senhor levou ao conceito caracteristicamente luterano da communicatio idiomatum (comunicação de propriedades), com o sentido de “que cada uma das naturezas de Cristo permeia a outra (perichoresis), e que a Sua humanidade participa dos atributos da Sua divindade”. Afirma-se que os atributos de onipotência, onisciência e onipresença foram comunicados à natureza humana de Cristo ao tempo da encarnação. Suscitou-se naturalmente a questão sobre como isto poderia harmonizar-se com o que sabemos da vida terrena de Jesus. Alguns teólogos luteranos afirmam que Cristo pôs de lado os atributos divinos recebidos na encarnação, ou os usava só ocasionalmente, enquanto outros diziam que Ele continuou de posse deles durante toda a sua vida terrena, mas os manteve ocultos ou só os usava secretamente. Alguns luteranos atualmente parecem inclinados a rejeitar esta doutrina. Os teólogos reformados (calvinistas) viam nessa doutrina luterana uma espécie de eutiquianismo ou de fusão das duas naturezas de Cristo.

Teologia reformada
> Também ensina uma comunicação de atributos, mas a concebe de maneira diferente da Cristologia Luterana. Crê que, depois da encarnação, as propriedades de ambas as naturezas podem ser atribuídas à pessoa única de Cristo. Pode-se dizer que a pessoa de Cristo é onisciente, mas também, que tem conhecimento limitado; pode ser considerada onipresente, mas também limitada, em qualquer tempo particular, a um único lugar.
> Segunda Confissão Helvética: “Reconhecemos, pois, que há no único e mesmo Jesus, nosso Senhor, duas naturezas – a natureza divina e a humana; e dizemos que estas são ligadas ou unidas de modo tal, que não são absorvidas, confundidas ou misturadas, mas, antes, são unidas ou conjugadas numa pessoa (sendo que as propriedades de cada uma delas permanecem a salvo e intactas), de modo que podemos cultuar a um Cristo, nosso Senhor, e não a dois. Portanto, não pensamos nem ensinamos que a natureza divina em Cristo sofreu, ou que Cristo, de acordo com a Sua natureza humana, ainda está no mundo e, assim, em todo lugar”.

Século dezenove
> Deu-se grande mudança no estudo da pessoa de Cristo. Até àquele tempo, o ponto de partida fora predominantemente teológico, e a cristologia resultante era teocêntrica; mas durante a última parte do século dezoito houve crescente convicção de que se alcançariam melhores resultados partindo do estudo do Jesus histórico. Assim foi introduzido o “segundo período cristológico”, assim chamado. O novo ponto de vista era antropológico, e o resultado foi antropocêntrico. Isto evidenciou-se destrutivo para a fé cristã. Uma distinção de maior alcance e perniciosa foi feita entre o Jesus histórico, delineado pelos escritores dos evangelhos, e o Cristo teológico, fruto da fértil imaginação dos pensadores teológicos, e cuja imagem reflete-se agora nos credos da igreja. O Cristo sobrenatural abriu alas para um Jesus humano; e a doutrina das duas naturezas abriu alas para a doutrina de um homem divino.

Scheleiermacher
> Considerava Cristo como uma nova criação, na qual a natureza humana é elevada ao nível da perfeição ideal. Todavia, dificilmente se pode dizer que o seu Cristo se eleva acima do nível humano. A singularidade da Sua pessoa consiste do fato de que Ele possui um perfeito e vívido senso de união com o divino, e também realiza com plenitude o destino do homem em Seu caráter de perfeição impecável. A Sua suprema dignidade encontra a sua explicação numa presença especial de Deus nele, em Sua consciência singular de Deus.

Hegel
> Sistema panteísta de pensamento. O Verbo se fez carne significa que Deus se encarnou na humanidade; a encarnação expressa realmente a unidade de Deus e o homem. Enquanto a humanidade em geral considera Jesus unicamente como um mestre humano, a fé O reconhece como divino e vê que, por Sua vinda ao mundo, a transcendência de Deus torna-se imanência.

Teorias quenósicas
> Representam uma notável tentativa de melhorar a elaboração da doutrina da pessoa de Cristo.
> O termo kenosis é derivado de Fp 2.7, que ensina que Cristo “se esvaziou (ekenosen), assumindo a forma de servo”. Os quenosicistas tomam isso no sentido de que o Logos tornou-se, isto é, transformou-se literalmente num homem, reduzindo-se total ou parcialmente às dimensões de um homem, e depois cresceu em sabedoria e poder, até que afinal se tomou Deus de novo.
> Propunha-se manter a realidade e a integridade da humanidade de Cristo, e dar vivo relevo à grandiosidade da Sua humilhação, na qual Ele, sendo rico, fez-se pobre por nós. Contudo, ela envolve uma obstrução da linha de demarcação entre Deus e o homem.

Domer (Escola Mediadora)
> Opôs-se fortemente a esse conceito quenosicista e o substituiu pela doutrina de uma encarnação progressiva. Ele via na humanidade de Cristo uma nova humanidade com especial receptividade para com o divino. O Logos, o princípio de auto-concessão de Deus, juntou-se a essa humanidade; a medida em que o fez foi determinada em cada estágio pela sempre crescente receptividade da natureza humana para com o divino, e não alcançou o seu estágio final até à ressurreição. Mas isto não passa de uma nova e sutil forma da heresia nestoriana. Resulta num Cristo que consiste de duas pessoas.

Albrecht Ritschl
> Exerceu grande influência sobre a teologia contemporânea.
> Sua cristologia tem seu ponto de partida na obra de Cristo, e não em Sua pessoa. A obra de Cristo determina a dignidade de Sua pessoa. Ele era mero homem, mas em vista da obra que realizou e do serviço que prestou, acertadamente Lhe atribuímos os predicados da Divindade.
> Ritschl rejeita a preexistência, a encarnação e a concepção virginal de Cristo.
> Cristo foi o fundador do reino de Deus e induz os homens a ingressarem na comunidade cristã e a terem uma vida motivada pelo amor. Ele redime o homem por Seu ensino, por Seu exemplo e por Sua influência única, e, portanto, é digno de ser chamado Deus.

Teologia Moderna
> Ideia de uma unidade essencial de Deus e o homem.
> A doutrina das duas naturezas de Cristo desapareceu da teologia moderna e em seu lugar temos uma identificação panteísta de Deus e o homem. Essencialmente, todos os homens são divinos, desde que todos têm em si um elemento divino; e todos são filhos de Deus, diferindo de Cristo somente em grau. O ensino moderno acerca de Cristo está baseado na doutrina da continuidade de Deus e o homem. E é exatamente contra essa doutrina que Barth e os que pensam como ele ergueram sua voz.

Sobre Cristianismo Total

Cristianismo Total é um blog evangélico que tem como objetivo difundir a fé Cristã, que é a mensagem através da qual o Deus Eterno se revelou à humanidade.
Esse post foi publicado em Cristologia, Teologia e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s