O Problema do Sofrimento Humano

Por C. S. Lewis

O texto abaixo refere-se a trechos retirados dos capítulos 6 e 7 do Livro “O Problema do Sofrimento” escrito por C. S. Lewis.

A possibilidade do sofrimento é inerente à própria existência de um mundo onde almas possam encontrar-se. Quando as almas se tornam perversas, elas certamente fazem uso desta possibilidade para se ferirem umas às outras. Isto talvez justifique quatro quintos dos sofrimentos humanos. Foram os homens, e não Deus, que inventaram a tortura, os chicotes, as prisões, a escravidão, as armas, as baionetas e as bombas. A pobreza e o excesso de trabalho são produtos da avareza ou da estupidez humana e não uma distorção da natureza. De todo modo, porém, existe ainda muito sofrimento que não pode ser atribuído a nós mesmos. Mesmo que toda dor fosse causada pelo ser humano, ainda assim gostaríamos de saber a razão para a tolerância por parte de Deus no que diz respeito à tortura que os indivíduos malvados infligem aos seus semelhantes (Em lugar de “malvados”, talvez fosse preferível dizer “as piores criaturas” Não rejeito de forma alguma o ponto de vista de que a “causa eficiente” da doença, ou alguma doença, possa ser um outro ente criado e não o próprio homem. Nas Escrituras, Satanás se acha particularmente associado à doença em Jó, Lucas 13:16, I Co 5:5 e provavelmente em I Tm 1:20. Neste ponto de nosso argumento, o fato de todas as vontades criadas, às quais Deus permite o poder de atormentar outras criaturas, serem ou não humanas, é por completo indiferente).

O melhor bem da criatura é entregar-se ao seu Criador — desempenhar intelectual, volitiva e emocionalmente esse relacionamento dado no simples fato de ser uma criatura. Quando age nessa conformidade ela é boa e feliz. A fim de não julgarmos que isto traga sofrimento, esta espécie de bem se inicia num nível muito superior ao das criaturas, pois o próprio Deus, como Filho, desde a eternidade entrega a Deus, como Pai, mediante a obediência filial, o ente que o Pai, pelo amor paternal, gera eternamente no Filho. Foi este o padrão para o qual o homem foi feito, aquele que deve imitar — que o homem paradisíaco imitou realmente — e toda vez que a vontade conferida pelo Criador é assim perfeitamente ofertada de volta em obediência jubilosa e causadora de alegria por parte da criatura, aí, sem dúvida, está o Céu, e daí emana o Espírito Santo.

No mundo, como o conhecemos hoje, o problema está em como recobrar esta auto-entrega. Não somos apenas criaturas imperfeitas que devem ser aperfeiçoadas: nós somos, como disse Newman, rebeldes que precisam depor as armas. A primeira resposta, então, à pergunta da razão pela qual nossa cura deve ser penosa, é que render a vontade que por tanto tempo reivindicamos como nossa é, em si mesmo, uma dor cruciante, onde quer e como seja isso levado a efeito. Até mesmo no Paraíso fiz supor que exista uma auto-aderência mínima a ser vencida, embora a vitória e a rendição constituíssem ali uma expressão de arrebatamento.

Render, porém, uma vontade inflamada e tumefacta por anos de usurpação é uma espécie de morte. Todos podemos lembrar desta vontade como o era na infância. Os acessos amargos e prolongados de raiva a qualquer contrariedade. A explosão em lágrimas ardentes, o desejo negro e satânico de matar ou morrer em lugar de render-se. Assim sendo, o tipo mais antiquado de governanta ou de pais estava muito certo em pensar que o primeiro passo na educação é “esmagar” a vontade da criança.

Os métodos por eles empregados foram com freqüência errados; mas não observar essa necessidade é, penso eu, excluir-se de toda compreensão das leis espirituais. E se agora que somos crescidos não gritamos nem batemos tanto os pés, isso se deve parcialmente ao fato de as pessoas mais velhas terem dado início ao processo de esmagar ou matar nossa obstinação no berço, e parcialmente porque essas mesmas paixões tomam agora formas mais sutis e são mais peritas em evitar a morte mediante várias “compensações”. Daí a necessidade de morrer diariamente: por mais que julguemos ter esmagado o “eu” rebelde, vamos sempre descobri-lo vivo. O fato deste processo não poder apresentar-se sem sofrimento é suficientemente testemunhado pela própria história da palavra “mortificação”. Mas esta dor intrínseca, ou morte, ao mortificar o “eu” usurpado, não constitui toda história. A mortificação, de maneira paradoxal, embora seja em si mesma um sofrimento, é facilitada pela presença da dor no seu contexto. Em minha opinião isto acontece principalmente de três modos.

O espírito humano não começará sequer a tentar render a vontade enquanto tudo parecer que está correndo bem. O erro e o pecado possuem ambos esta propriedade, quanto mais profundos são tanto menos as suas vítimas suspeitam de sua existência; são um mal mascarado. O sofrimento é um mal às claras, indiscutível; todo homem sabe que algo está errado quando sente dor.

E a dor não é apenas um mal identificável, mas um mal impossível de ignorar. Podemos repousar satisfeitos em nossos pecados e estupidez; e quem quer que tenha observado os glutões engolindo os alimentos mais delicados como se não soubessem o que comiam, irá admitir que podemos ignorar até mesmo o prazer. Mas o sofrimento insiste em ser notado. Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nosso sofrimento: ele é o seu megafone para despertar um mundo surdo. Um homem mau, mas feliz, é um indivíduo que não tem a mínima noção de que seus atos não são uma “resposta”, de que eles não se conformam às leis do universo.

Até que o perverso descubra que o mal se acha indiscutivelmente presente na sua vida, na forma de sofrimento, ele está envolto em uma ilusão. Uma vez que a dor o desperte, ficará sabendo que, de uma ou outra forma, se acha “em’ oposição” ao universo real: ou ele se rebela (com a possibilidade de um resultado mais claro e um arrependimento mais profundo num estágio posterior) ou então tenta fazer um ajustamento, no qual, se persistir, chegará à religião.

Não há dúvida de que o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podendo levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento. Mas ele fornece também a única oportunidade que o perverso pode ter de emendar-se. Ele remove o véu, planta a bandeira da verdade na fortaleza de uma alma rebelde.

Se a primeira operação do sofrimento destroça a ilusão de que tudo está bem, a segunda faz cair a ilusão de que aquilo que temos, quer seja bom ou mau em si mesmo, é nosso e basta para nós. Todos sabem como é difícil voltar nossos pensamentos para Deus quando tudo vai bem conosco. A expressão “temos tudo o que queremos” é uma frase terrível quando esse “tudo” não inclui Deus. Nós achamos que Deus é uma interrupção. Como diz Sto. Agostinho em algum lugar, “Deus quer dar-nos algo, mas não pode, porque nossas mãos estão cheias – não há nelas lugar para colocá-lo”. Ou como afirmou um amigo meu: “consideramos Deus como um aviador considera o seu pára-quedas; ele o leva para as emergências, mas espera jamais ter de usá-lo”.

Todavia, Deus, que nos fez, sabe o que somos e que nossa felicidade está nEle. Nós, porém, não a buscamos nEle enquanto permitir-nos qualquer outro recurso onde ela possa plausivelmente ser procurada. Enquanto aquilo que chamamos de “nossa própria vida” permanecer agradável, não iremos entregá-la a Ele. O que pode então Deus fazer em nosso benefício senão tornar “nossa vida” menos agradável, e remover as fontes plausíveis da falsa felicidade? É justamente aqui, onde a providência divina parece à primeira vista ser mais cruel, que a humildade divina, o rebaixamento do Altíssimo merece o maior louvor.

Ficamos perplexos ao ver a desgraça caindo sobre pessoas decentes, inofensivas, dignas – sobre mães de família capazes, esforçadas, ou trabalhadores diligentes, econômicos, sobre aqueles que se empenharam tanto e com tanta honestidade para obter o seu pequeno quinhão de felicidade e agora parecem estar começando a gozá-lo com plenos direitos. Como posso dizer com suficiente ternura o que precisa ser dito?

Quero implorar ao leitor que tente crer, embora apenas por um momento, que o Deus que fez todas essas pessoas cheias de mérito, possa estar realmente certo quando pensa que sua modesta prosperidade e a felicidade de seus filhos não bastam para fazê-las abençoadas: que tudo isso deve deixá-las no final, e que se não tiverem aprendido a conhecê-lo sentir-se-ão miseráveis. E assim Ele as per turba, advertindo-as antecipadamente de uma insuficiência que um dia terão de descobrir. A vida para elas e suas famílias se interpõe entre as mesmas e o reconhecimento de sua necessidade; Ele torna essa vida menos suave para elas. Chamo a isto de humildade divina porque é deprimente procurar Deus quando o navio está afundando debaixo de nós; deprimente achegar-nos a Ele como um último recurso, oferecer nossa pessoa quando não vale mais a pena guardá-la. Se Deus fosse orgulhoso Ele jamais nos aceitaria nesses termos, mas Ele não é orgulhoso, Ele se abaixa para conquistar, Ele nos aceita embora tenhamos mostrado que preferimos tudo o mais a Ele, e nos achegamos porque agora não há “nada melhor” que possamos ter. A mesma humildade é manifestada através de todos os apelos divinos aos nossos temores, o que perturba alguns leitores das Escrituras. É bem pouco elogioso para Deus que O escolhamos como uma alternativa para o inferno: mas até mesmo isto ele aceita. A ilusão de auto-suficiência da criatura deve, em seu próprio benefício, ser destruída; e pelas dificuldades ou medo das dificuldades na terra, pelo medo indisfarçado das chamas eternas, Deus a destroça “não levando em conta a diminuição de sua glória”. Os que desejariam que o Deus da Bíblia fosse mais puramente ético, não sabem o que estão pedindo. Se Deus fosse um kantista, que não iria aceitar-nos senão quando nos aproximássemos dEle baseados nos motivos mais puros e melhores, quem poderia ser então salvo? E esta ilusão de auto-suficiência pode ser mais forte em algumas pessoas muito honestas, bondosas e temperantes, e sobre elas, então, a desgraça deve cair. Os perigos da auto -suficiência aparente explicam por que Nosso Senhor considera os vícios dos fracos e dissipados com muito maior tolerância do que os vícios que levam ao sucesso mundano. As prostitutas não correm o risco de considerar sua vida presente tão satisfatória que não possam voltar-se para Deus: os orgulhosos, os avarentos, os que possuem auto-retidão, correm esse perigo. A terceira operação do sofrimento é um pouco mais difícil de entender. Todos irão admitir que a escolha é essencialmente consciente. A escolha envolve o conhecimento daquilo que se escolhe. O homem paradisíaco optou sempre por seguir a vontade de Deus. Ao agir assim, ele também gratificou seu próprio desejo, tanto por que todos os atos exigidos dele eram, de fato, agradável às suas inclinações irrepreensíveis, como também porque o serviço de Deus era por si mesmo seu mais profundo prazer, sem o qual todas as alegrias seriam insípidas para ele. A pergunta: “Faço isto para agradar a Deus ou apenas porque gosto?” não surgiu então, desde que fazer coisas para Deus era o que ele principalmente apreciava. Sua vontade dirigida para Deus cavalgava a sua felicidade, como se esta fosse um animal bem orientado, enquanto a nossa vontade, quando estamos felizes, é envolvida na felicidade como um navio descendo uma correnteza.

O prazer era então uma oferta aceitável a Deus, porque a oferta era um prazer. Nós, porém, herdamos todo um sistema de desejos que não contradizem necessariamente a vontade de Deus, mas que, depois de séculos de autonomia usurpada, firmemente a ignora. Se aquilo que gostamos de fazer é de fato a coisa que Deus quer que façamos, essa não é, porém, a razão para que a realizemos, ela continua sendo apenas uma simples e feliz coincidência. “Não podemos perceber, portanto, que estamos agindo, principalmente, por causa de Deus, a não ser que o material da ação seja contrário às nossas inclinações, ou (em outras palavras) penoso, e aquilo que não sabemos que estamos escolhendo, não podemos escolher. O ato completo da rendição do “eu” a Deus exige então sofrimento: este ato, para ser perfeito, deve proceder da vontade pura de obedecer, na ausência ou em oposição à nossa tendência. É absolutamente impossível render o “eu” fazendo aquilo de que gostamos; sei disso muito bem pela minha própria experiência no momento. Quando me propus a escrever este livro esperava que a vontade de obedecer o que poderia ser uma “orientação” tivesse pelo menos algum lugar em meus motivos. Mas agora que estou inteiramente mergulhado nele, tornou-se mais uma tentação do que um dever. Posso ainda esperar que o preparo deste livro seja, de fato, conforme a vontade de Deus: mas argumentar que estou aprendendo a render-me ao fazer o que para mim é tão empolgante seria ridículo.

Todos os argumentos justificando o sofrimento provocam amargo ressentimento contra o autor. Você gostaria de saber como me comporto quando sofro, e não quando escrevo sobre isso. Não precisa ficar imaginando porque vou contar-lhe. Sou um grande covarde.

Mas, que ligação isso tem com o propósito em mente? Quando penso em dor – naquela ansiedade que corrói como fogo e na solidão que se estende como um deserto, a triste rotina da miséria monótona, as dores fundas que escurecem todo o nosso horizonte ou aquelas repentinas e enjoativas que arrancam o coração de um só golpe, dores que já parecem ser intoleráveis e de súbito aumentam, dores furiosas como se fossem picadas de escorpião que provocam movimentos adoidados em alguém que parecia meio morto por causa das torturas já sofridas – isso “quase abate o meu espírito”. Se conhecesse algum meio de escapar, me arrastaria através de esgotos para descobri-lo. Mas, de que adianta falar-lhe sobre os meus sentimentos? Você já os conhece: são os mesmos que os seus. Não estou discutindo que a dor não seja penosa. A dor magoa. É isso que a palavra significa. Estou apenas tentando mostrar que a velha doutrina cristã de nos “aperfeiçoarmos através do sofrimento” (Hb 2.10) não é inacreditável. Provar que ela é agradável está fora de minhas cogitações.

Para avaliar a credibilidade da doutrina devem ser observados dois princípios. Em primeiro lugar, devemos ter em mente que o momento atual da dor no presente é apenas o centro do que pode ser chamado de sistema de tribulação total que se amplia através do temor e da piedade. Os efeitos positivos que essas experiências possam ter dependem do centro; assim, mesmo que a dor em si não tivesse valor espiritual, mas o medo e a piedade tivessem, a dor teria de existir para que pudesse haver algo a ser temido e compadecido. Não se pode também duvidar que a piedade e o temor nos ajudam em nossa volta à obediência e à caridade. Todos nós já experimentamos o efeito da piedade, tornando mais fácil para nós amar os que não provocam amor, isto é, amar ao próximo não porque ele seja de qualquer forma agradável a nós, mas por ser nosso irmão.

Minha própria experiência é mais ou menos a seguinte. Estou progredindo ao longo da estrada da vida em minha condição usual, satisfeita e decaída, absorvido num encontro agradável com amigos marcado para amanhã ou um pouco de trabalho que estimula minha vaidade hoje, um feriado ou um livro novo, quando de repente uma pontada no abdome que pode indicar doença séria, ou uma notícia nos jornais ameaçando o mundo de destruição, faz ruir o meu castelo de cartas. Sinto-me a princípio vencido, com todas as minhas pequenas alegrias desfeitas como brinquedos destroçados. A seguir, devagar e com relutância, pedaço a pedaço, tento enquadrar-me no estado de espírito em que deveria sempre estar.

Chamo minha atenção para o fato de que todos esses brinquedos não tinham o propósito de apossar-se do meu coração, que meu bem real está num outro mundo e que meu único e verdadeiro tesouro é Cristo. E, talvez, pela graça de Deus, venha a ter êxito, e durante um dia ou dois me torno uma criatura que depende conscientemente de Deus e que extrai a sua força das fontes certas. Mas no momento em que a ameaça desaparece, toda a minha natureza salta de volta aos brinquedos: fico até ansioso, que Deus me perdoe, para banir de minha mente a única coisa que me sustentou sob a ameaça, porque ela está agora associada à miséria daqueles poucos dias.

Fica então muito clara a terrível necessidade da tribulação. Deus me teve apenas por quarenta e oito horas e mesmo assim à força de ameaças, de tirar de mim tudo o mais. No momento em que Ele embainha a espada, me comporto como um cachorrinho quando o odiado banho acaba – sacudo-me o melhor que posso e corro a recuperar minha confortável sujeira, se não for no monturo mais próximo, pelo me nos no primeiro canteiro de flores. É por isso que as tribulações não podem cessar até que Deus nos veja transformados ou julgue que nossa transformação é agora impossível.

Em segundo lugar, quando estamos considerando a dor em si – o centro de todo o sistema tribulativo – devemos ter cuidado de aplicar-nos àquilo que conhecemos e não ao que imaginamos. Esta é uma das razões por que a parte central deste livro é dedicada ao sofrimento humano, e o dos animais foi relegado a um capítulo especial. Nós conhecemos o sofrimento humano, enquanto só podemos especular sobre o dos animais. Mesmo dentro da raça humana é preciso extrair nossa evidência de circunstâncias que pudemos observar. A tendência deste ou daquele novelista ou poeta pode representar o sofrimento como absolutamente negativo em seus efeitos, como se produzisse e justificasse toda espécie de maldade e brutalidade no sofredor. E, naturalmente, a dor, assim como o prazer, podem ser recebidos dessa forma: tudo o que é dado a uma criatura com livre-arbítrio deve ter dois gumes, não pela natureza do doador ou do que foi dado, mas pela natureza do recipiente. Os resultados negativos da dor podem ser multiplicados se os observadores ensinarem constantemente aos que estão sofrendo que esses são exatamente os resultados certos e nobres que devem manifestar. A indignação quanto ao sofrimento de outrem, embora seja uma paixão generosa, precisa ser bem controlada a fim de não roubar a paciência e humildade dos que sofrem e semear a ira e o cinismo em seu lugar.

Não estou, porém, convencido de que o sofrimento, se lhe for poupada tal indignação intrometida e vicária, tenha qualquer tendência natural para produzir tais males. Não achei que as trincheiras estivessem mais cheias de ódio, egoísmo, rebelião e desonestidade do que qualquer outro lugar. Vi uma grande beleza de espírito em alguns indivíduos que muito sofreram. Vi homens, que no correr dos anos se tornaram melhores e não piores, e vi a última doença produzir tesouros de força e mansidão por parte de alguns que bem pouco prometiam. Observo em personagens históricos ama dos e reverenciados, como Johnson e Cowper, traços que seriam admitidamente intoleráveis caso tivessem sido eles mais felizes. Se o mundo for de fato um “vale de formação de almas”, ele parece em termos gerais estar fazendo o seu trabalho. Quanto à pobreza a aflição que atual ou potencialmente inclui todas as demais aflições – não ousaria falar por mim mesmo; e os que rejeitam o cristianismo não irão comover-se com a declaração de Cristo de que a pobreza é abençoada. Aqui, porém, um fato notável vem em minha ajuda. Os que repudiam com desdém o cristianismo como um simples “ópio do povo” desprezam os ricos, isto é, toda a humanidade exceto os pobres. Eles consideram os pobres como as únicas pessoas dignas de serem poupadas da “liquidação”, e colocam neles a única esperança da raça humana. Mas isto não é compatível com a crença de que os efeitos da pobreza sobre os que a sofrem são inteiramente negativos; implica até mesmo em que eles são bons. O marxista vê se então concordando realmente com o cristão em relação a essas duas crenças que o cristianismo paradoxalmente exige – que a pobreza é abençoada, mas mesmo assim deve ser removida.

Existe no cristianismo um paradoxo no que se refere à tribulação. Bem-aventurados são os pobres, mas através do “juízo” (i.e., da justiça social) e esmolas devemos remover a pobreza sempre que possível. Bem-aventurados somos quando perseguidos, mas podemos evitar a perseguição fugindo de cidade em cidade, e é permitido orar para que sejamos poupados, como fez nosso Senhor no Getsêmani.

Mas, se o sofrimento é bom não deveria ele ser procurado em vez de evitado? Respondo que ele não é bom de si mesmo. O que é positivo para o sofredor em qualquer experiência penosa é a sua submissão à vontade de Deus e, para os espectadores, a compaixão despertada e os atos de bondade a que esta os leva.

No universo decaído e parcialmente remido podemos distinguir: (1) o simples bem procedente de Deus, (2) o simples mal produzido pelas criaturas rebeldes, e (3) a exploração desse mal por parte de Deus para atender ao seu propósito redentor, que produz (4) o bem complexo para o qual contribuem o sofrimento aceito e o pecado de que nos arrependemos. O fato de Deus poder extrair o bem complexo do simples mal não desculpa – embora pela misericórdia ele possa salvar – os que praticam o simples mal. Esta distinção é essencial. As ofensas devem sobrevir, mas ai daqueles que as praticam; os pecados realmente fazem abundar a graça, mas não devemos fazer disso uma justificativa para continuar pecando. A crucificação é em si mesma o melhor, assim como o pior, de todos os eventos históricos, mas o papel de Judas continua simplesmente sendo mau. Podemos aplicar isto primeiro ao problema do sofrimento alheio. O homem misericordioso visa o bem de seu próximo assim como a “vontade de Deus”, colaborando conscientemente com o “bem simples”. O homem cruel oprime seu semelhante e o mesmo acontece com o simples mal. Mas ao praticar esse mal, ele é usado por Deus, sem seu conhecimento ou permissão, para produzir o bem complexo – e assim o primeiro homem serve a Deus como filho e o segundo como instrumento.

Você irá certamente realizar o propósito de Deus, de qualquer forma que possa agir, mas fará diferença em sua vida se servi-lo como Judas ou como João.

Se a tribulação é um elemento necessário na redenção, devemos antecipar que jamais cessará até que Deus considere o mundo como sendo passível ou não de remissão. O cristão não pode, portanto, acreditar naqueles que afirmam que apenas se alguma reforma em nosso sistema econômico, político ou de saúde fosse feita, teríamos um céu na terra.

Os homens famintos buscam alimento e os doentes cura, não obstante saibam que depois da refeição ou da cura os altos e baixos da vida ainda continuam à sua espera. Não estou naturalmente discutindo se modificações drásticas em nosso sistema social são ou não desejáveis; mas apenas lembrando o leitor de que um determinado remédio não deve ser erradamente aceito como o elixir da vida.

A doutrina cristã do sofrimento explica, creio eu, um fato muito curioso sobre o mundo em que vivemos. A felicidade e segurança estáveis que todos almejamos nos são negadas por Deus pela própria natureza do mundo: mas alegria, prazer e diversão, Ele espalhou por toda parte. Jamais estamos seguros, mas temos muita alegria e algum êxtase. Não é difícil saber por quê. A segurança que desejamos nos ensinaria a descansar o coração neste mundo e seria um obstáculo à nossa volta a Deus: uns poucos momentos de felicidade no amor, um belo cenário, uma sinfonia, um encontro alegre entre amigos, um banho ou um jogo de futebol, não têm essa tendência. Nosso Pai nos refresca na jornada fornecendo algumas estalagens agradáveis, mas não nos encoraja a aceitá-las como se fossem o nosso lar.

Não devemos jamais tornar o problema do sofrimento pior do que já é, falando vagamente de “uma soma inconcebível de miséria humana”. Suponhamos que eu tenha uma dor de dentes de intensidade x: e suponhamos que você, sentado ao meu lado, comece também a ter uma dor de dentes de intensidade x. Você pode, se quiser, dizer que o total de dor no recinto é agora 2x. Mas deve lembrar-se de que ninguém está sofrendo 2x: pode procurar em todo tempo e espaço e não descobrirá essa dor composta na consciência de ninguém. Não existe algo como uma soma de sofrimento, pois ninguém a sofre. Quando alcançamos o máximo que uma pessoa pode sofrer, teremos, sem dúvida, atingido algo bastante horrível, mas alcançamos todo o sofrimento que jamais pode haver no universo. O acréscimo de um milhão de indivíduos igualmente sofredores não irá acrescentar mais nada a essa dor.

 

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Sobre Cristianismo Total

Cristianismo Total é um blog evangélico que tem como objetivo difundir a fé Cristã, que é a mensagem através da qual o Deus Eterno se revelou à humanidade.
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