O Céu

Por C. S. Lewis

O texto abaixo refere-se a trechos retirados do capítulo 10 do Livro “O problema do sofrimento” escrito por C. S. Lewis.

As Escrituras e a tradição habitualmente colocam as alegrias do céu na balança em contraste com os sofrimentos da terra, e qualquer solução do problema que não faça isso não pode ser chamada de cristã.
O que vou dizer agora não passa de uma simples opinião minha, sem a menor autoridade, que submeto ao julgamento de cristãos e estudiosos melhores do que eu. Em certas ocasiões penso que não desejamos o céu; mas, mais vezes ainda, fico imaginando se, em nosso íntimo mais profundo, jamais desejamos outra coisa. Você pode ter notado que os livros de que mais gosta estão unidos por um fio secreto. Você sabe muito bem qual a qualidade comum que faz com que goste deles, embora não possa colocá-la em palavras; mas a maioria de seus amigos não consegue vê-la, e ficam a perguntar-se como, gostando disto, você possa também gostar daquilo. Um dia você pode ter contemplado certo cenário que pareceu englobar tudo o que esteve procurando toda a sua vida; e depois voltou-se para um amigo a seu lado, que parece estar vendo o que você viu mas, às primeiras palavras, um abismo se abre entre os dois, e você percebe que esse cenário significa algo totalmente diverso para ele, que ele está perseguindo uma visão estranha e não se interessa nada pela inefável sugestão que arrebatou você.
Até mesmo em suas diversões, não houve sempre uma atração secreta que os outros curiosamente ignoram – algo que não pode ser identificado, mas sempre prestes a revelar-se, o cheiro da madeira cortada na oficina ou o bater da água nos lados do barco? As amizades duradouras não nascem sempre no momento em que você finalmente encontra outro ser humano que possui uma certa percepção (embora leve e incerta) daquilo que você nasceu desejando, e que, debaixo do fluxo de outros desejos e em todos os silêncios momentâneos entre as paixões mais articuladas, dia e noite, ano e ano, desde a infância até a velhice, você está procurando, observando, ouvindo? Você jamais teve isso. Tudo o que jamais possuiu profundamente a sua alma, não passou de insinuações do mesmo – vislumbres torturantes, promessas que não chegam a cumprir-se, ecos que morreram no momento mesmo em que chegaram a seus ouvidos. Mas se viesse realmente a manifestar-se – se surgisse um eco que não morresse, mas se transformasse no próprio som – você saberia. Além de toda possibilidade de dúvida você diria: “Aqui está finalmente a coisa para a qual fui feito”. Não podemos falar uns aos outros sobre ela. É a assinatura secreta de cada alma, o desejo incomunicável e insaciável, a coisa que desejamos antes de encontrar nossas esposas ou fazer nossos amigos ou escolher nosso trabalho, e que continuaremos desejando em nossos leitos de morte, quando a mente não mais conhece esposa, nem amigo, nem trabalho. Enquanto somos, ela é. Se a perdermos, perdemos tudo.
Esta assinatura em cada alma pode ser um produto da hereditariedade e do ambiente, mas isso simplesmente significa que tanto a hereditariedade como o ambiente, estão entre os instrumentos por meio dos quais Deus cria uma alma. Não estou considerando como, mas por que Deus fez cada alma única. Se Ele não tivesse uso para todas essas diferenças, não vejo por que deveria ter criado mais do que uma alma. Esteja certo de que as saliências e reentrâncias de sua individualidade não são mistério para Ele; e um dia não o serão também para você. O molde em que uma chave é feita seria estranho para você se nunca tivesse visto uma chave; e a própria chave em si seria também esquisita se nunca tivesse visto uma fechadura. A sua alma tem uma forma curiosa por se tratar de uma cavidade feita para encaixar-se numa protuberância particular nos contornos infinitos da substância divina, ou uma chave para abrir uma das portas na casa com muitas moradas. Pois não é a humanidade de maneira abstrata que deve ser salva, mas você – você, o leitor individual, João da Silva ou Maria de Almeida. Bendita e afortunada criatura, seus olhos irão contemplá-lo e somente os seus e não os de outro. Tudo o que você é, com exceção dos pecados, está destinado a saciar-se, se permitir que Deus realize o Seu bom propósito. Deus olhará para cada alma como se fosse o seu primeiro amor, porque Ele é o primeiro amor dela. A sua posição no céu parecerá ter sido feita para você e só para você, porque você foi feito para ela, ponto por ponto, como uma luva é feita para a mão.
É deste ponto de vista que podemos compreender o inferno em seu aspecto de privação. Durante toda a sua vida um êxtase inatingível pairou pouco além do alcance de sua consciência. Está chegando o dia em que despertará para descobrir, além de toda expectativa, que o alcançou, ou então, que estava a seu alcance e você o perdeu para sempre.
A coisa de que falo não é uma experiência. Você só experimentou o anseio. A coisa em si jamais foi expressa em qualquer pensamento, imagem, ou emoção. Ela sempre o chamou para fora de si mesmo. E se não sair para segui-la, se ficar sentado para meditar sobre o desejo e tentar cultivá-lo, o desejo em si fugirá de você. O “black-out” não é completo, as trevas não são compactas. Existem frestas. A cena diária parece às vezes enorme com o seu segredo.
Essa é a minha opinião, e pode estar errada. Talvez este desejo secreto seja parte do Velho Homem e precise ser crucificado antes do fim. Mas esta opinião tem um modo curioso de impor-se. O desejo – ou talvez mais ainda, a satisfação – sempre se recusou a estar por completo presente em qualquer experiência. O que quer que você tente identificar com ele, mostra-se afinal como não sendo o mesmo, mas outra coisa. Desse modo, qualquer grau de crucifixão ou transformação dificilmente poderia ir além daquilo que o desejo em si nos leva a esperar. E, novamente, se esta opinião não for verdadeira, algo melhor é. Mas” algo melhor” – não esta ou aquela experiência, mas além dela – é quase a definição da coisa que estou tentando descrever.
A coisa almejada por você o chama para fora do “eu”. Até mesmo o desejo dela só subsiste se você abandoná-lo. Esta é a lei final, a semente morre para viver, o pão deve ser lançado às águas, o que perde a sua alma ganha-la-á. Mas a vida da semente, a descoberta do pão, a recuperação da alma, são tão reais quanto o sacrifício preliminar. Assim é dito com verdade a respeito do céu: “no céu não há sentido de propriedade. Se qualquer um ali viesse a chamar algo de seu, seria imediatamente lançado no inferno e se tornaria um espírito maligno.” Mas, é também dito: “A todo aquele que for vitorioso darei uma pedra branca, e na pedra estará gravado um nome novo que ninguém mais conhece, a não ser aquele que o recebe” (Ap 2.17). O que pode pertencer mais a um homem do que este nome novo que mesmo na eternidade permanece um segredo entre Deus e ele? E qual o significado que devemos dar a esse segredo? Certamente que cada um dos remidos irá conhecer para sempre e louvar algum aspecto da beleza divina mais do que qualquer outra criatura pode fazê-lo. Para o que mais foram os indivíduos criados, senão para que Deus, amando infinitamente a todos, pudesse amar a cada um de maneira diferente? E esta diferença, longe de prejudicar, enche de significado o amor de todas as criaturas abençoadas umas pelas outras, a comunhão dos santos. Se todos tivessem experiência de Deus da mesma forma e o adorassem de maneira idêntica, o cântico da Igreja triunfante não teria sinfonia, seria como uma orquestra em que todos os instrumentos tocas sem a mesma nota.
Aristóteles nos informou que uma cidade é uma união de dessemelhanças, e São Paulo disse que um corpo é uma unidade de membros diferentes. O céu é uma cidade, e um Corpo, porque os benditos permanecem eternamente diferentes: uma sociedade, porque cada um tem o que contar a todos os demais – notícias frescas e sempre frescas do “Meu Deus” que cada um encontra naquele que todos louvam como o “Nosso Deus”. Pois sem dúvida a tentativa continuamente vitoriosa, todavia, jamais completada, feita pelas almas individuais no sentido de comunicar sua visão ímpar a todas as outras (e isso através de meios dos quais a arte e a filosofia terrenas não passam de grosseiras imitações), acha-se também entre os propósitos para os quais o indivíduo foi criado.
A união existe apenas entre os dessemelhantes; e, talvez, deste ponto de vista, tenhamos um vislumbre momentâneo do significado de todas as coisas. O panteísmo não é um credo tanto falso como por completo superado. Outrora, antes da criação, poderia ter sido verdade dizer que tudo era Deus. Mas Deus criou: ele fez com que coisas viessem a diferençar-se dele; a fim de que, sendo distintas, aprendessem a amá-lo, e alcançassem união em lugar de simples igualdade. Assim, Ele também lançou o seu pão por sobre as águas. Mesmo dentro da criação poderíamos dizer que a matéria inanimada, que não possui vontade, é una com Deus num sentido que os homens não são. Mas não é propósito de Deus que voltemos àquela antiga identidade (como, talvez, alguns místicos pagãos desejariam que fizéssemos), mas que avancemos para a máxima diferenciação, a fim de ali nos reunirmos a Ele de maneira mais elevada. Mesmo no Próprio Ente Santo, não basta que a Palavra deva ser Deus, ela deve também estar com Deus. O Pai gera eternamente o Filho e o Espírito Santo atua: a divindade introduz distinção em si mesma, para que a união dos amores recíprocos possa transcender a mera união aritmética ou a auto-identidade.
A distinção eterna de cada alma – o segredo que faz da união entre cada alma e Deus uma espécie em si mesma – jamais irá, porém, abolir a lei que proíbe a propriedade no céu. Quanto aos seus semelhantes, cada alma, supomos, irá estar eternamente envolvida em dar a todos os demais aquilo que receber. E quanto a Deus, devemos lembrar que a alma não passa de uma cavidade que é enchida por Ele. Sua união com Deus, quase por definição, é uma auto-entrega contínua, uma abertura, um desvendar, uma rendição, de si mesma. Um espírito abençoado é um molde cada vez mais conformado ao metal brilhante nele despejado, um corpo cada vez mais completamente descoberto ao calor meridiano do sol espiritual. Não precisamos supor que a necessidade de algo análogo à autoconquista venha a cessar jamais, ou que a vida eterna não seja também a morte eterna. É neste sentido que, da mesma forma que pode haver prazeres no inferno (Deus nos livre deles), pode haver algo levemente parecido à dor no céu (Deus permita que logo possamos experimentá-la).
Na dádiva de nós mesmos, mais do que em qualquer outra coisa, entramos em contato não só com toda a criação, mas com todo o ser. Pois o Verbo Eterno também Se dá a Si mesmo em sacrifício; e isso não apenas no Calvário, pois quando foi crucificado Ele “fez debaixo das intempéries de suas províncias remotas o que fizera em seu lar na glória e com alegria”. Desde antes da fundação do mundo, Ele entrega a divindade gerada de volta à divindade geradora, em obediência. E da maneira como o Filho glorifica o Pai, assim também o Pai glorifica o Filho. Com submissão, como cabe a um leigo, penso que foi dito com verdade: “Deus não amou a si mesmo como sendo Ele mesmo, mas como a Excelência; e se houvesse algo melhor do que Deus, Ele amaria a isso e não a Si mesmo.”
Desde o superior até o mais inferior, o ego existe para ser abdicado e, por essa abdicação, se torna tanto mais um verdadeiro “eu”, para ser então ainda mais abdicado, e assim para sempre. Esta não é uma lei celestial à qual possamos escapar mantendo-nos terrenos, nem uma lei terrena da qual possamos fugir sendo salvos. O que está fora do sistema de auto-entrega não é terreno, nem natural, nem “vida comum”, mas simples e absolutamente inferno. Todavia, até mesmo o inferno deriva desta lei tanta realidade quanto ela possui. Essa prisão brutal no “eu” não passa do anverso da auto-rendição que é a realidade absoluta; a forma negativa tomada pelas trevas exteriores ao cercar e definir a forma do real, ou que o real impõe sobre as trevas ao possuir uma forma e natureza positiva próprias.
A maçã dourada do “eu”, lançada entre os falsos deuses, tornou-se um pomo de discórdia porque eles se arremessaram ao mesmo. Não conheciam a primeira regra do jogo sagrado, que estabelece que cada jogador deve sem dúvida tocar a bola e depois passá-la imediatamente adiante. Ser encontrado com ela nas mãos é uma falta: agarrar-se a ela representa a morte. Mas quando ela voa para a frente e para trás entre os jogadores, rápida demais para ser seguida com os olhos, e o grande Senhor, Ele mesmo, lidera a brincadeira, dando-se a Si mesmo no sacrifício, do Verbo; então, na verdade, a dança eterna “acalenta o céu com sua harmonia”. Todas as dores e prazeres que conhecemos na terra são os movimentos dessa dança: mas a dança em si não pode ser absolutamente comparada aos sofrimentos do tempo presente. À medida que nos aproximamos de seu ritmo não criado, a dor e o prazer quase desaparecem de vista. Existe alegria nela, mas a dança não existe por causa da alegria. Ela não existe nem mesmo por causa do bem, ou do amor. Mas é o próprio Amor, e o próprio Bem, e, portanto feliz. Não existe para nós, mas nós para ela.
O que a nossa Terra é para todas as estrelas, sem dúvida assim somos nós os homens e nossas preocupações para toda a criação; o que as estrelas representam para o próprio espaço, assim são todas as criaturas, todos os tronos e poderes e excelências dos deuses criados, em relação ao abismo do Ser que existe por si mesmo, que é para nós Pai e Redentor e Consolador, mas de quem nenhum homem ou anjo pode dizer nem conceber o que Ele é em Si mesmo e para Si mesmo, ou qual é a obra que Ele “fez desde o começo até o fim”. Pois todas essas são coisas derivadas e sem substância. A sua visão falha e elas cobrem os olhos para escapar da luz intolerável da realidade absoluta, que era e é e será, que nunca poderia ter sido de outro modo, que não tem oposto.

About these ads

Sobre Cristianismo Total

Cristianismo Total é um blog evangélico que tem como objetivo difundir a fé Cristã, que é a mensagem através da qual o Deus Eterno se revelou à humanidade.
Esse post foi publicado em C. S. Lewis, Defesa da Fé, Teologia e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s